Por Andréa Migliori

O debate sobre quanto tempo passamos trabalhando está em alta há algum tempo, em especial desde a pandemia. É natural que um evento dessa magnitude faça muitas pessoas reavaliarem suas vidas e, como o trabalho ocupa grande parte do nosso tempo, é a área que mais tem sido discutida. Daí surgem expressões como “short friday” ou “no friday”, propostas para reduzir a carga horária nas sextas-feiras ou cortá-la completamente, garantindo um fim de semana de três dias aos profissionais.

Mas como conciliar uma sugestão desse tipo com as demandas do mercado? Como manter a produtividade e sustentar a economia? Será que as pessoas não vão acabar trabalhando dobrado em um período menor e, assim, ficarem mais exaustas e adoecidas?

Essas perguntas são válidas e devem entrar no debate. Só tem um detalhe: elas não são novas, assim como toda a conversa, em si, não tem nada de novidade.

A redução da jornada de trabalho aconteceu em outros momentos na História e sempre encontrou dificuldades e resistências. Cada período enfrentava suas próprias necessidades, então a mudança não podia acontecer sem bastante estudo e perseverança. O modelo com o qual estamos acostumados hoje já foi visto com ceticismo no passado.

Por exemplo, o economista estadunidense Robert Whaples demonstrou a evolução das horas trabalhadas nos Estados Unidos para a Associação de História Econômica, e pasmem: até o século XIX, era comum trabalhar mais de 70 horas por semana. Esse número colocado lado a lado com nosso padrão de 44 horas semanais parece absurdo, não é?

No Brasil, também temos exemplos claros dessa evolução. A primeira legislação trabalhista foi publicada em 1891, estabelecendo uma jornada diária de 12 horas para os trabalhadores das indústrias e das ferrovias — o que ainda não acontecia na prática por falta de fiscalização, aliás. Mais tarde, nos anos 30, veio a máxima de 8 horas por dia e 48 horas semanais, e depois, em 1943, a CLT estabeleceu às 44 horas por semana para a maioria das pessoas.

Segundo alguns estudos divulgados, as empresas que optaram pela redução da jornada de trabalho para quatro dias por semana, tiveram resultados positivos na produtividade e bem-estar dos colaboradores. No Brasil a proposta está em teste. Fonte: Getty Images

Mesmo nessa época, existiam e ainda existem exceções. Trabalhadores rurais podem ter jornadas mais longas, e há regras diferentes para quem trabalha em regime de revezamento, por exemplo. O ponto é que foi preciso uma série de alterações e discussões até que o novo modelo fosse definido.

Agora, já faz mais de 80 anos desde que foi definido o padrão que ainda seguimos. É indiscutível que muita coisa mudou de lá para cá e que os tempos são outros. Então não é realmente uma surpresa que o debate tenha sido reacendido. Se não fosse a pandemia trazendo-o à tona, teria provavelmente sido outra situação, como, por exemplo, o avanço repentino da inteligência artificial, que otimiza o tempo de milhares de profissionais.

O que não pode ser esquecido é que as mesmas respostas não funcionam para todos os contextos.

Nosso mercado de trabalho é muito amplo e complexo para conter apenas um modelo atualmente. É só pensar no outro tema que também não sai mais da boca do povo, o “remoto versus presencial”. Há empresas atuando das duas maneiras, e também de forma híbrida, e cada uma define o que faz mais sentido para sua própria operação.

Portanto, não acho que a questão seja se a redução da jornada vai ou não acontecer, mas sim que ela pode acontecer dentro de várias conjunturas diferentes, assim como pode não funcionar tão bem em outras, ao menos por enquanto.

Nós temos a tecnologia, temos um mundo de profissionais dedicados e estamos sempre criando métodos inovadores de trabalho. Essa combinação garante que a discussão não só é inevitável como está apenas começando.

***
Andréa Migliori,
CEO da Workhub, uma HRTech de soluções para portais corporativos, pioneira no segmento a incorporar inteligência artificial aos seus serviços.


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