A propalada austeridade fiscal impõe um incremento artificial dos juros, encarecendo a despesa pública e o crédito privado.

*Por Ranulfo Vidigal – economista

Numa das primeiras cenas do filme “Livre Pensar” do cineasta José Mariani, que homenageia a economista Maria da Conceição Tavares ela categoricamente afirma: ” os economistas ditos progressistas quando sentam na cadeira do Ministério da Fazenda, ou do Banco Central passam a praticar um grau de submissão aos mercados globais instáveis e à política do dólar e do juro americano de forma inacreditável, aceitando a tirania das agências de risco com certa ingenuidade”,  exatamente como notamos hoje.

Juros elevados agradam os especuladores internacionais e os rentistas locais. Nesse contexto, a Dívida Pública Federal torna-se um dos principais instrumentos de aumento da acumulação privada, uma forma de compensar a queda da taxa de lucro, em escala planetária.

O Estado, através do fundo público, cumpre a missão de acelerar o tempo de rotação do capital e garantir a acumulação de forma ininterrupta. Além disso tem 6% do PIB na forma de renúncias fiscais para o agronegócio e outros setores.

Portanto, a propalada austeridade fiscal impõe um incremento artificial dos juros, encarecendo a despesa pública e o crédito privado. Para exemplificar:  0,25 ponto percentual de aumento da SELIC custa o equivalente a um ano de todas as políticas públicas federais do Ministério das Mulheres.

Ou seja, temos, ao mesmo tempo, cortes de gastos em saúde, educação e moradia. Isso desacelera o crescimento da produção, elimina empregos e contém a tênue recuperação dos salários no setor privado. Trata-se de uma exigência do andar de cima para atenuar o conflito distributivo na sociedade brasileira.

Nosso país, a cada dia é mais agrobusiness, mineração e finanças e menos industrial. Tem vaga de trabalho, mas o salário é baixo e a informalidade ainda é alta. Agora inclusive, o trabalhador uberizado ainda está preso na armadilha do endividamento familiar.

Nosso mundo urbano está embasado em uma indústria da segunda revolução industrial, um inchaço dos serviços e um trabalho cada vez mais precarizado. Já o campo, acabou se entrelaçando com o capital financeiro, e com as tecnologias de ponta para formar um grande centro de gravidade na economia brasileira, esta experiência chega a ser intitulada internacionalmente como “a fazenda do mundo”, via riqueza do agro.

Com tudo isso, além da crise ambiental revelada pelas ação das queimadas, a realidade revela uma escassez de recursos disponíveis para satisfazer as necessidades concretas de subsistência do cidadão comum, cada dia mais suscetível a sujeitar-se a relações opressivas, perda de direitos e maior dependência da chamada ‘viração” para sobreviver na terra do futebol, das apostas esportivas e do carnaval.

Há uma frase genial de Millôr Fernandes que se encaixa como uma luva ao tempo presente: “Um idiota nunca aproveita a oportunidade. Na verdade, muitas vezes, o idiota é a oportunidade que os outros aproveitam”.

Nesse diapasão, tem ministro da área econômica sendo vaiado na USP e a pesquisa IPEC constata que 58% dos brasileiros não sugerem ao atual mandatário, buscar uma reeleição em 2026, apesar da inegável recuperação econômica e da estabilidade da inflação vigente no tempo presente.

*Ranulfo Vidigal – economista


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